Mossoró possui mais de 77 mil consumidores negativados no SPC

Situação "gera uma diminuição no volume de novos negócios", afirma Wellington Fernandes, presidente da CDL.

Foto: Marcos Garcia/Jornal De Fato
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Maricelio Almeida/Jornal De Fato

Mossoró possui hoje 77.405 consumidores negativos no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). O número preocupa a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) da cidade, conforme explica ao JORNAL DE FATO o presidente da entidade, Wellington Fernandes.

"É um número bastante elevado, e tem oscilado ano a ano, mostrando uma curva crescente na inadimplência local e refletindo na piora do cenário nacional, trazendo uma preocupação constante para a CDL. Isso gera uma diminuição no volume de novos negócios", pontuou.

Wellington reforça que o alto percentual de mossoroenses negativos traz sérios prejuízos ao mercado local. "Não podemos mensurar isso em números, mas há prejuízos, já que é uma massa importante de consumidores que deixa de efetuar suas compras a crédito, impactando seriamente o comércio", afirmou.

Ainda segundo o presidente da CDL de Mossoró, entre os fatores que justificariam esse elevado número de consumidores locais negativos estão a recessão econômica, o descontrole do orçamento das famílias e as compras motivadas por impulso. É também o pensamento compartilhado pelo economista Franklin Filgueira, professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

"A crise econômica traz em si o desemprego em massa e, com isso, corta a fonte de renda das pessoas. Noutra linha, há também a dificuldade de controle do orçamento doméstico das famílias, pois nós brasileiros não conseguimos assimilar uma cultura de planejamento que absorva ajustes de orçamento doméstico. A falta dessa cultura é agudizada com o recente acesso ao crédito em larga escala, pois a geração atual é que passou a contar com essa importante ferramenta financeira, mas para isso é necessário que haja planejamento e controle do orçamento familiar", enfatizou Filgueira.

Ainda sobre o controle orçamentário familiar, Franklin acrescenta que não há uma "fórmula mágica" que deva ser seguida pelos consumidores. "Nos cursos de graduação em geral, não se ensina esse tipo de disciplina, e mesmo naqueles casos em que as pessoas estudam objetivamente isso, ainda assim é difícil o controle, em especial quando não se prevê reduções abruptas de renda, como as decorrentes do desemprego em massa, o que leva as pessoas a se endividar, pois os contratos e compras efetuados já não são mais possíveis de serem honrados. Há que se observar que o brasileiro normalmente prefere comprar parcelado, a juntar o dinheiro suficiente para comprar à vista; daí, vai pagar juros exorbitantes e não conseguir defender-se da inadimplência nos períodos de desemprego."

Na visão de Wellington Fernandes, o quadro atual de inadimplência em alta pode ser revertido, a partir de medidas adotadas pelos gestores que tomarão posse em 1° de janeiro de 2019. "Com a posse dos novos governantes e mediante as medidas que venham a ser tomadas no âmbito da economia, como um ajuste fiscal em que procure adequar as despesas ao orçamento, e não como tem sido a prática de todos os governos que é ajuste pelo lado do aumento das receitas via aumento de impostos, poderemos então ter uma reversão desse quadro", disse.

Por fim, o presidente da CDL destaca a importância de o consumidor ter mais consciência do seu orçamento. "Essa questão da inadimplência pode ocorrer mesmo quando estamos com emprego, se não nos conscientizarmos do nosso poder de compra. Para o comércio, também não é interessante esse descontrole, pois isso nos levará a uma perda de clientes. Outra dica seria procurar os seus credores e fazer uma negociação em que possa ser equacionada a dívida em condições que se possa cumprir o acordado. A CDL está sempre disposta a colaborar para que a cidade possa encontrar novos rumos no tocante a sua economia e assim possamos gerar novos empregos, trazendo mais dinamismo à economia e, consequentemente, diminuindo a inadimplência", concluiu.

Economista apresenta dicas para o consumidor sair do vermelho

Uma vez endividado e negativado, o consumidor passa a enfrentar uma série de restrições no mercado. Como então reverter essa situação e voltar a usufruir do seu poder de compra? O economista Franklin Filgueira apresenta algumas dicas a seguir:

"O consumidor pode renegociar com os credores, procurar fontes alternativas de renda que complementem ou viabilizem as amortizações de dívidas não pagas e fazer um bom orçamento familiar e pessoal, de modo que se controlem os gastos e se passa a gerar recursos em sobra suficiente para pagamento das dívidas. Melhor quando se adquire a cultura e a aplica na vida, mesmo passado o período de inadimplência. Complementando, é possível usar o dispositivo da portabilidade e trocar dívidas caras - como do cartão de crédito - por dívidas mais baratas, como a do crédito consignado", elencou.

No processo de negociação com a empresa cobradora do débito, o consumidor deve, segundo orienta Franklin Filgueira, apresentar a real condição da sua capacidade de pagamento atual, formalizando um pedido de abatimento de juros e multas acumuladas na constituição da dívida. "Ninguém está imune ao inadimplemento. Trabalhadores podem perder seu emprego e empresários podem ter expectativas de vendas frustradas e também sofrer os efeitos da inadimplência sobre suas próprias receitas. O ideal é buscar a reconstituição das rendas e a redução das despesas", finalizou o economista.