Gestação X Coronavírus: precauções em tempos de pandemia

Ginecologista e obstetra Maxson Bruno fala sobre os cuidados que as gestantes devem adotar diante da Covid-19.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Do Jornal De Fato/Sua Vida Mulher

A pandemia do novo coronavírus tem trazido preocupações para a população mundial, de forma geral, mas um grupo em especial sofre com as incertezas diante de uma doença que acomete tantas pessoas, e de formas distintas: as gestantes. O caderno Sua Vida Mulher reforça os cuidados que as gestantes precisam adotar em tempos tão atípicos.

O Sua Vida Mulher conversou com o médico ginecologista e obstetra Maxson Bruno. De acordo com o especialista, levando em consideração a transmissão assintomática da Covid-19, todas as mulheres grávidas com histórico de contato com alguém que tenha testado positivo para a doença devem ser cuidadosamente monitoradas.

"As gestantes devem ter as mesmas precauções gerais de higiene e contato para evitar infecção pela Covid-19. Sempre alertamos nossas gestantes que se elas tiverem febre, tosse ou dificuldade para respirar devem procurar assistência, seguindo fluxo estabelecido pelas autoridades de saúde local e pela instituição hospitalar de retaguarda local. Se a gente levar em conta que a transmissão assintomática pode ser possível em mulheres grávidas ou recentemente grávidas, todas as mulheres com história de contato devem ser cuidadosamente monitoradas", reforçou.

O ginecologista enfatiza que as grávidas com suspeita, provável ou confirmada de Covid-19, incluindo mulheres que precisam passar um tempo isoladas, devem ter acesso facilitado a cuidados especializados como obstetrícia, além de suporte psicológico. Maxson Bruno fala também sobre os cuidados com o pré-natal em tempos de pandemia.

"Inicialmente já ressalto que, neste período em que a orientação é de que todos não saiam de casa, os intervalos das consultas de pré-natal podem ser aumentados se não houver prejuízo da qualidade do acompanhamento, principalmente nos casos de pré-natal de baixo risco. Para as pacientes de alto risco gestacional, mesmo se estiverem assintomáticas, a programação deve ser mantida e nos casos de gestantes com suspeita ou sob acompanhamento pós-diagnóstico da infecção viral, em isolamento domiciliar, a consulta deve ser agendada para quando acabar o período de isolamento", explicou.

O médico acrescenta que é imprescindível o uso de máscaras nas consultas, álcool gel e lavagem de mãos; que o ambiente seja higienizado a cada gestante atendida; que os atendimentos sejam por hora marcada para evitar aglomeração na recepção e a equipe da clinica deve estar devidamente paramentada e seguindo as regras de cuidados preconizadas para evitar transmissão da doença.

"Em todas as consultas recomenda-se investigar a presença de sintomas gripais e/ou contatos recentes com pessoas infectadas pela Covid-19. Reforçamos que as gestantes devem permanecer o mínimo de tempo necessário para a realização das consultas de pré-natal, evitando ao máximo aglomerações em salas de esperas. Também devemos recomendar que as pacientes compareçam sem acompanhantes nas consultas", pontua.

Dr. Maxson Bruno - ginecologista e obstetra
Dr. Maxson Bruno - ginecologista e obstetra

Sintomas

O médico Maxson Bruno explica que alguns dos sintomas da Covid-19 se assemelham com sintomas típicos da gravidez, o que gera ainda mais ansiedade entre as mulheres no atual cenário pandêmico. "Em seus estágios mais avançados, algumas gestantes apresentam sintomas como fadiga, sensação de cansaço fácil, 'respiração curta'; tosse (decorrente do refluxo - muito comum na gravidez); náuseas; rinites (que também podem ser comuns na gestação)", relata, complementando:

"O uso de máscara tem piorado esses sintomas típicos do processo gestacional e em meu consultório sempre escuto reclamações de sentir-se mais sufocada, mais cansada que o habitual ao usar máscara. Diante de tudo isso é compreensível a dúvida de como diferenciar esses sintomas da Covid-19 e aí entra a importância do acompanhamento, orientação e avaliação médica em caso de dúvida".

Como se trata do binômio materno-fetal, o cuidado deve ser redobrado, reforça o médico, bem como deve ser levada em consideração a observância dos sinais e sintomas de gravidade, vitalidade fetal e exames obstétricos que vão nortear a assistência.

"Para indicação de hospitalização devem ser considerados os seguintes sinais de agravamento: frequência cardíaca maior que 100 batimentos cardíacos por minuto, frequência respiratória ≥ 22 incursões respiratórias por minuto, saturação de oxigênio <95%, enchimento capilar > 2 segundos, oligúria (ou seja, redução do volume urinário para um valor abaixo de 400 mL em 24 horas), alteração da ausculta pulmonar, tontura/confusão mental/agitação psicomotora, sofrimento fetal agudo, entre outros", detalha.

Gestantes estão mais suscetíveis ao vírus?

De acordo com Maxson Bruno, apesar de os dados disponíveis serem limitados e controversos, não há evidência que exista maior risco para as gestantes do que para a população em geral, mas é imprescindível que todos os cuidados de prevenção constantes nos protocolos direcionados à população em geral sejam adotados nos atendimentos às mulheres grávidas.

"Ainda não existe tratamento específico com efetividade comprovada contra a infecção por Covid-19, e mantém-se, no caso das gestantes, o mesmo protocolo da paciente não grávida. A indicação e a periodicidade dos exames complementares específicos para avaliação fetal - como ultrassonografia obstétrica, cardiotocografia - dependerão do quadro clínico da gestante", reforça.

Sobre a transmissão da Covid-19 de mãe para filho, ainda no útero, o médico relata: "A ciência vive uma correria por resposta, mas penso que ciência exige tempo. O que hoje um estudo afirma, amanhã outro já refuta. Vale destacar que mesmo cientes de que isso pode acontecer - ainda estamos aprendendo muito diariamente sobre essa doença - a transmissão intrautero não é comum e no caso isolado de um estudo francês a criança se recuperou bem", comentou.

O médico afirma que, até o momento, não há evidências de comprometimento fetal em grávidas com doença grave. "Poucos casos foram relatados de recém-nascidos confirmados com Covid-19; aqueles que foram relatados tiveram doença leve. Não há até o momento contraindicação para amamentação. Não há evidências de maior risco de aborto, feto morto, restrição do crescimento fetal ou que o vírus possa passar comumente para o feto em desenvolvimento", pontua.

Por fim, Maxson Bruno revela que sua experiência no atendimento a pacientes co Covid-19 também na atenção básica. "Além de atuar como ginecologista e obstetra, decidi desde o inicio da pandemia sair do meu lugar de conforto e 'ajudar' na pandemia na atenção básica também. Isso foi importante, pois pude estar mais perto de um maior número de casos, lidar com diversas manifestações clinicas da doença nos mais diversos grupos, desde crianças a idosos, grupos de risco ou não".

E complementa: "É preciso sempre um bom exame médico, coletar bem a história da paciente e acalmá-la com informações corretas. Hoje vivemos uma facilidade enorme de acesso à informação e muitas delas de má qualidade. Não podemos substituir a avaliação/orientação médica pelo 'Dr Google'", finaliza o especialista.