Abandono: Teatro Kiko Santos está inutilizado há quase 10 anos

Espaço instalado no Colégio Estadual comporta cerca de 200 pessoas e poderia beneficiar, principalmente, a comunidade escolar

Foto: Marcos Garcia/De Fato
Foto: Marcos Garcia/De Fato

Maricelio Almeida/Jornal De Fato

"A sensação que temos é que passou um 'tsunami' por aqui." Com essa frase, o diretor da Escola Estadual Jerônimo Rosado, Marcondes Benevides, abriu a porta do Teatro Kiko Santos, localizado dentro da unidade de ensino, para a reportagem do JORNAL DE FATO. Dali em diante, o que se viu foi um espaço em estado de abandono, com poltronas danificadas, paredes com infiltrações, cupins e lâmpadas penduradas.

O equipamento que leva o nome de um dos fundadores do Teatro Escola Amadores de Mossoró (TEAM), grupo responsável por consolidar, entre os anos de 1950 e 1965, a arte teatral na cidade, está fechado há quase 10 anos. O espaço que hoje está inutilizado comporta cerca de 200 pessoas e poderia beneficiar, principalmente, a comunidade escolar, revelando talentos adormecidos.

"É uma situação triste. Com esse espaço funcionando, ficaríamos mais entusiasmados para nos apresentarmos. O teatro serviria não somente para a nossa escola, mas também para outras", comenta o estudante Jonatan Eduardo, do 2° ano do ensino médio.

Fotos: Marcos Garcia/De Fato
Fotos: Marcos Garcia/De Fato

O Teatro Kiko Santos, que também recebe o nome de Auditório Escola, funcionou até o ano 2009, quando o colégio Jerônimo Rosado, inaugurado em março de 1959, comemorou o seu jubileu de ouro. Em seguida, uma grande reforma foi iniciada na escola, com serviços concluídos em 2012. No entanto, o equipamento cultural não foi contemplado, em sua totalidade, com o serviço. Desde então, a estrutura está fechada.

"A reforma, na verdade, nunca foi concluída. Em tudo ficou faltando alguma coisa. No auditório foi feito um reboco, que caiu antes de o espaço ser reaberto. A parte de eletricidade também ficou pendente. Era excelente para a escola quando o equipamento funcionava. Havia apresentações de mostras culturais, reunião de pais, era mais um ponto de cultura na cidade", destacou a professora Francione Ferreira, que estudou no Jerônimo Rosado e há mais de 30 anos integra a equipe de docentes.

Segundo o diretor da escola, Marcondes Benevides, já foram enviados ofícios à Secretaria de Educação cobrando a reforma do teatro, mas não houve uma resposta positiva por parte do Governo do Estado. "Nós cobramos, mas acredito que falte vontade política. Para o Estado, isso aqui não é muita coisa não, no sentido de recurso para a reforma. Inclusive, houve um período em que a Fundação José Augusto (FJA) estava querendo ficar responsável pelo equipamento, mas também não prosperou", pontuou.

O período ao qual o diretor se refere é 2016. Naquele ano, a Fundação José Augusto, sob a gestão do mossoroense Crispiniano Neto, chegou a anunciar interesse em incluir o Teatro Kiko Santos no programa de reformas dos teatros estaduais. Questionada pela reportagem do JORNAL DE FATO sobre o assunto, a assessoria de imprensa da FJA afirmou apenas que a responsabilidade pela gestão e manutenção do equipamento é da Secretaria de Educação e Cultura.

Já a Secretaria de Educação, também por meio de sua assessoria, afirmou que entrará em contato com a comunidade escolar do Jerônimo Rosado para discutir a atual situação da obra na escola. "Após esse diálogo, será analisado pela Secretaria o atendimento da demanda no menor tempo possível", respondeu.

Para a produtora cultural Katharina Gurgel, sobrinha-neta de Kiko Santos, a situação de abandono do teatro localizado na Escola Jerônimo Rosado é lamentável. "Como cultura já é um setor que sempre fica aquém do que é dito fundamental, o que a gente vê é um descaso com a memória dessas pessoas importantes. Kiko foi um dos precursores do teatro mossoroense, ele levou o nome do teatro de Mossoró para fora. A história vai ficando de lado", comentou.

"A vida dele foi o teatro", afirma viúva de Kiko Santos

A professora universitária aposentada Maria José Frota, viúva de Kiko Santos, conversou com a reportagem do JORNAL DE FATO sobre a trajetória do artista. "Ele foi um dos principais nomes dentro do rol de atores daquela época. A vida dele foi o teatro e as festas em Mossoró, nos clubes ACDP, Ipiranga. Ele atuava e também dava trabalho (risos)", sintetizou, com brilho nos olhos e sorriso no rosto.

Francisco das Chagas dos Santos, ou simplesmente Kiko Santos (apelido dado pela mãe), nasceu em 1940, no município de Areia Branca, vindo para Mossoró ainda nos primeiros anos de vida. Ao lado de nomes como Ivonete de Paula, Maria Lúcia Escóssia, Iremar Leite e Crispiniano Neto, formou o Teatro Escola Amadores de Mossoró (TEAM), grupo que chegou a se apresentar e ser premiado no Rio Grande do Sul, no início da década de 1960.

"Kiko gostava de ambientes alegres, cores vibrantes. Tinha um coração acolhedor, gostava de ajudar, adorava crianças. Era uma pessoa extraordinária e muito irreverente. Faleceu aos 57 anos, por causa da boemia, fumava muito, e acabou tendo enfisema pulmonar", contou Maria José Frota, que teve três filhos com Kiko: Ákio, Michele e Carol Frota.

Questionada sobre o Teatro Kiko Santos, a professora conta que o marido sempre dizia que, se um dia fosse receber homenagens, que elas acontecessem quando ele ainda estivesse vivo. "Até mesmo para o homenageado ter conhecimento que valeu a pena. Mas foi uma homenagem coerente, proposta pela então deputada Sandra Rosado, até porque ele foi aluno do Colégio Estadual, 'pintou o sete' por lá. Foi um aluno bem trabalhoso", relembrou.

Além do Teatro Kiko Santos, o ator também é homenageado na Escola de Teatro da Escola de Artes de Mossoró, no Prêmio Fomento de Incentivo à Cultura e no empreendimento que a família administra no bairro Nova Betânia, o Kiko's Mall. Antes, seu nome estava estampado no buffet Kiko's Festas e Eventos, também de sua família.


Mossoró conta apenas com o Teatro Dix-huit Rosado em funcionamento

Atualmente, das grandes estruturas que possui para apresentações culturais, Mossoró só conta com o Teatro Dix-huit Rosado em pleno funcionamento. O Teatro Lauro Monte Filho, localizado no Centro da cidade, e o Teatro Padre Alfredo Simonetti, instalado ao lado da Escola Estadual Padre Dehon, no Alto de São Manoel (zona leste), estão fechados, sendo que o primeiro passa por um processo de reforma iniciado em 2012 e até hoje não concluído.

"As pessoas sentem falta de espaços de teatro, de um incentivo maior, e eu vejo essas pessoas mais indignadas, os artistas se movimentando mais. Sem espaços, a produção cultural é empobrecida. Temos um teatro muito bom, que é o Dix-huit Rosado, com uma pauta de apresentações, mas ele acaba sobrecarregado, sem condições de fazer tudo. Nos dá uma dó no coração a situação desses outros equipamentos; existiria demanda para eles", destacou a produtora cultural Katharina Gurgel.

O JORNAL DE FATO questionou a Fundação José Augusto (FJA) sobre a situação em que se encontram os teatros Lauro Monte Filho e Padre Alfredo Simonetti. Sobre o Lauro Monte, a FJA informou que aproximadamente 25% dos serviços já foram executados e que a conclusão da restauração e reforma deve acontecer até o final de outubro. O valor da obra é R$ 5.039.921,65.

Já em relação ao Alfredo Simonetti, a Fundação explicou que, apesar de ter sido construído com recursos do Governo do Estado, o teatro pertence à Paróquia de São Manoel. "No acordo firmado na época, o Estado bancou a construção desse equipamento de cultura em um terreno da Diocese de Mossoró", acrescentou.

A reportagem tentou, então, contato com o pároco da Igreja Matriz de São Manoel, padre José Janedson, mas os telefonemas da equipe não foram atendidos.